2026/01/28

Velásquez Entre Nós

"Las Ninas-1656"


No centro da sala, a infância repousa,
vestida de luz, de rendas e silêncio.
A infanta brilha sem saber que é história,
enquanto o tempo se dobra em seu gesto.

Olhares cruzam-se como fios invisíveis,
quem vê, quem pinta, quem é visto?
O pintor permanece, sombra viva,
assinando o instante com o próprio corpo.

Espelhos sussurram verdades oblíquas,
reis existem apenas no reflexo.
A arte respira dentro do quadro,
 o quadro observa quem ousa olhar.

Um cão dorme — guardião do real.
As meninas dançam entre dever e jogo.
Tudo é presença, tudo é pergunta:
quem somos nós diante deste espelho antigo?


As meninas estão só confabulando,

São unidas pelos laços estreitando.

Maduras, conferem poder mútuo,

Aliadas, estão em sintonia, em duo.


Vestem-se tal senhoritas alinhadas,

Elegância e charme, bem apanhadas.

Ousam confabular assuntos vários, 

Desafiam sua época nos comentários. 


São meninas moças preteridas ainda,

Näo  exigem maravilhas na berlinda.

Inequívocos resolvidos as unem muito,

Fazem jus à amizade, é  amor gratuito.




🍁🌸🍁

2026/01/19

Sergei Stoev Entre Nós

 

Quando o sol desce,
não é o dia que termina,
é Deus que fala em voz baixa.

A luz repousa sobre a água
como uma bênção antiga,
 cada reflexo
é uma oração sem palavras.

O barco segue,
pequeno diante do infinito,
mas inteiro na confiança
de quem se entrega
à corrente certa.

Não há mapas,
apenas presença.
Não há pressa,
apenas fé.

As aves sabem o caminho
sem o nomearem.
As margens esperam
sem exigirem.

Tudo está onde deve estar.

Neste silêncio dourado,
a alma compreende,
navegar é permitir
que a Luz conduza,
mesmo quando o horizonte se fecha.



No crepúsculo divinal, o barco navega devagar,
Sharon nos agracia com cenário descomunal ímpar.

O brilho dourado interfere pelo bom humor e ânimo,
poente dourado nos inebria, de todos e bom arrimo.

Êxtase, esplendor majestoso, no compasso silencioso,
o ritmo amoroso ressalta a Criação do Deus bondoso.

Em águas transparentes, o amor desliza sem pressa,
só o bom sentimento é o importante, nos interessa.

Cenário reluzente, momento de enlevo raríssimo,
o ser humano precisa admirar o postal terníssimo.

2026/01/11

Paula Rego Entre Nós

Dançarina-1995
 

Não dança para agradar,
dança porque o corpo sabe
aquilo que a boca nunca disse.

A perna aberta é uma afronta,
o braço erguido, defesa ou cansaço,
o tutu não esconde nada:
pesa.

Há um chão duro por baixo do gesto,
uma infância sentada num banco baixo,
ossos que aprenderam cedo
a resistir.

Esta dança não flutua,
finca-se.
Arranha o ar.

O rosto não pede aplauso,
pede silêncio.
Porque aqui o movimento
é memória,
e cada músculo guarda
uma história que não foi bonita
mas foi vivida.




Paula, liberta de todo pudor,
enrijece seu corpo com ardor.
Precisa de fortaleza nas pernas,
baila com afinco sem delongas.

Paula, liberta de toda sensatez,
fortalece os músculos com nitidez.
Anima a vida sua e dos apreciadores
da dança livre de mil contrariedades.

Paula, liberta de toda estupidez,
estimula movimentos indeléveis.
Surpreenderá seus expectadores,
assíduos seres de danças excelentes.

Paula, liberta de toda cupidez,
sinaliza, antevê os passos da vez.
Requer ânimo, presteza, fidelidade,
esforçar-se-á, estimula sua lealdade.



Nossa sugestão musical: Madredeus – “O Pastor”

💙💚💛

 Feliz Ano de 2026

Entramos neste novo ano com a força dos corpos que resistem e a coragem dos gestos que não pedem licença.

Que 2026 seja como esta Dançarina:
imperfeita, verdadeira, firme no chão, sem medo de ocupar espaço nem de contar a sua própria história.

Aos que caminham connosco, amigos, leitores e comentadores do nosso/vosso Entre Nós, o nosso profundo agradecimento: pelas palavras deixadas, pelos silêncios compreendidos, pela presença constante, mesmo quando discreta.

Que o novo ano nos traga mais beleza, mais arte, mais coragem para dançar a vida como ela é, sem disfarces e sem tutus que escondam o essencial.

Com carinho, 

Saúde, Amor e Paz 

 Rosélia🌹 e Fernanda🐦